Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República
Portugal é hoje o único país marítimo com projeção global histórica que não dispõe de um museu central, científico e crítico dedicado à sua expansão marítima. Paradoxalmente, conhecemos mais sobre navios da Antiguidade Clássica do que sobre as embarcações com que, nos séculos XV e XVI, navegadores portugueses ligaram continentes e inauguraram a primeira globalização. Falta-nos um espaço estruturado onde esse passado seja estudado, exposto e debatido com rigor histórico, arqueológico e científico.
A criação de um Museu dos Descobrimentos não deve ser entendida como uma celebração acrítica nem como um exercício de nostalgia. Pelo contrário, trata-se da oportunidade de construir um laboratório de conhecimento histórico, onde a arqueologia, a história, a ciência náutica, a crítica e a memória coletiva possam coexistir sem simplificações nem tabus. Um museu que explique não apenas “o que aconteceu”, mas como o conhecimento moderno se construiu a partir da experiência, da observação empírica, da navegação e do confronto com o mundo real.
O verdadeiro legado desse período não reside apenas nas viagens ou nos territórios alcançados, mas numa revolução cognitiva: a substituição do dogma pela experiência, da autoridade do texto pela verificação prática, da escolástica medieval por um empirismo que está na base da ciência moderna. Portugal teve um papel decisivo nesse processo, ao transformar o oceano num espaço de experimentação e a náutica num laboratório móvel.
Um Museu dos Descobrimentos deve, por isso, assumir toda a complexidade desse passado. Deve mostrar simultaneamente os avanços científicos, técnicos e culturais — cartografia, astronomia, engenharia naval, circulação de saberes — e as suas sombras: a violência, a escravatura, as assimetrias de poder e os conflitos inerentes à expansão europeia. Não para julgar retroativamente, nem para glorificar, mas para compreender historicamente como o nosso país interagiu com o resto do globo.
Ao contrário de receios frequentemente invocados, um museu desta natureza não empobrece a democracia nem reabre feridas: amadurece o debate público. A história não se purifica apagando vestígios ou silenciando capítulos; constrói-se através do estudo crítico, da contextualização e da exposição transparente dos factos. Outros países, incluindo antigos territórios sob domínio português, integram hoje esse passado nos seus museus e narrativas nacionais sem ressentimento, mas com rigor e consciência histórica.
Este museu deve ser também aberto e plural, acolhendo perspetivas internacionais. Portugal pode e deve liderar este processo, mas reconhecendo que a história global é feita de encontros e reciprocidades. Um modelo inovador poderia incluir espaços dedicados a países e culturas que com Portugal se cruzaram, permitindo-lhes apresentar, com autonomia e a suas expensas, as suas próprias narrativas desses contactos históricos, no mesmo espaço museológico a criar no nosso país.
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A criação de um Museu dos Descobrimentos não é, assim, um gesto ideológico, mas um ato de maturidade democrática, científica e cultural. É uma necessidade estratégica para o país, tanto no plano do conhecimento como da diplomacia cultural e da valorização do património. Portugal precisa deste museu não para consolidar mitos, mas para os ultrapassar; não para se exaltar, mas para se descrever; não para se defender do passado, mas para o compreender plenamente.
Por estas razões, peticiona-se que a Assembleia da República promova a discussão séria e informada sobre a criação de um Museu dos Descobrimentos, enquanto projeto nacional estruturante, científico, crítico e inclusivo, à altura da dimensão histórica global de Portugal.
Petição - A aguardar assinaturas online
Subscritor(es): Alexandre de Paiva Monteiro
Primeiro subscritor: 1
Assinaturas entregues: 0
Assinaturas online: 248
Total de assinaturas: 249
Anexos
Texto